
Confronto no Aeroporto
Dois dias depois de Corpus Christi, fomos chamados ao escritório do gerente do aeroporto por causa do voo em que pegamos carona, violando várias regras do aeroporto e da FAA.
Nosso piloto taxiou e decolou sem autorização. Claramente ele queria nos assustar para que assumíssemos a responsabilidade pelo que tinha feito — e também para descobrir quem era o piloto. Nós sugerimos que ele simplesmente esquecesse aquilo. Seria melhor para a aposentadoria dele.
A missão fazia parte de uma operação autorizada pelo Pentágono e pelo Departamento de Defesa. Aquilo nem estava dentro da jurisdição dele. Na verdade, nem éramos obrigados a conversar com o sujeito, mas resolvemos fazer isso porque o escritório dele ficava no mesmo corredor do nosso.
Queríamos dar a ele a chance de reclamar e se acalmar, porém o homem só ficava mais irritado. Enquanto ele lia uma lista enorme de regras da FAA que “nós” havíamos quebrado, começamos a cochichar entre nós e decidimos ir embora.
David perguntou se a torre de controle de ELP havia sido avisada previamente sobre um voo de emergência. O gerente se recusou a responder.
Claro que levantar e caminhar até a porta só deixou o cara ainda mais vermelho de raiva. Então eu sugeri que ele ligasse para o comando da Guarda Costeira no Pentágono.
— Quer o número deles? — perguntei.
O homem ergueu um fichário no ar e o jogou com força sobre a mesa.
Quando percebeu que tinha ficado sozinho na sala, ficou ainda mais furioso e ligou para o nosso chefe. Little Bird simplesmente colocou o telefone sobre a mesa e foi buscar café.
Muita gente acreditava que, dentro de um jato militar pequeno, todo mundo era piloto. Mas aqueles aviões tinham sido modificados para transportar VIPs do Pentágono, então todos os controles dos assentos traseiros haviam sido removidos. Como aquilo era sigiloso, ninguém sabia.
Por isso ele nos ameaçou: achava que nós também controlávamos o avião.
Nunca corrigimos o sujeito porque não queríamos confundi-lo com fatos.
A Busca Pela Casa Perfeita
Enquanto o período de calmaria continuava, começamos a procurar uma casa perto do aeroporto.
Nossos critérios eliminavam praticamente todos os imóveis do mercado. Queríamos uma casa suburbana em um bairro tranquilo, sem janelas quebradas nem pichações de gangues.
Precisava ter:
- três quartos;
- porão completo;
- garagem para dois carros;
- quintal fechado;
- espaço suficiente para uma piscina futuramente;
- internet a cabo;
- gás natural;
- inspeção contra cupins;
- pelo menos 1.800 pés quadrados;
- e menos de seis milhas do aeroporto.
Conhecemos um corretor mais velho, claramente gay, com cabelos brancos e um jeito elegante. Entregamos a ele nossa lista e dissemos:
— Sem pressa. Qualquer coisa, nos avise.
Nossa busca começou em agosto do nosso primeiro ano no oeste do Texas.
Treinamentos em White Sands
Durante aquele período tranquilo, passamos alguns dias em White Sands Missile Range treinando com armas e equipamentos de comunicação.
Também participávamos de projetos experimentais de nova geração.
Havia muita coisa secreta acontecendo em White Sands. Não eram apenas foguetes do Exército.
Conhecemos alguns caras interessantes por lá, mais jovens e descontraídos como nós. Um deles morava em Alamogordo e nos convidou para acampar com ele e a esposa em um lugar chamado Three Rivers Campground.
Durante a conversa, deixamos claro que éramos apenas nós dois. Sem esposas.
Ele demorou alguns segundos para entender que nós éramos casados um com o outro — e não com mulheres.
Sempre era engraçado observar a expressão das pessoas quando finalmente percebiam.
Eu cochichei para David:
— A gente precisava contratar uma amiga hétero gostosa só pra fingir em público.
David riu.
— Boa sorte encontrando uma.
Dinheiro, Motos e Desejos
Naquela época chegaram nossos primeiros bônus em cheques administrativos.
Guardamos o dinheiro em uma caixa escondida no armário do quarto menor.
David queria comprar uma moto e também um quadriciclo.
Passamos dias pesquisando modelos. O problema era que nenhuma moto fazia tudo perfeitamente.
Ele queria uma touring gigante, confortável como um carro de luxo, silenciosa e capaz de andar a mais de 170 km/h o dia inteiro.
Já eu gostava da ideia de aventuras no deserto.
Enquanto observávamos uma Honda Goldwing e uma Africa Twin Adventure, comecei a imaginar como seria viajar agarrado à cintura dele por quilômetros de estrada vazia.
David brincou:
— Ir e vir já é perigoso.
Ele falou aquilo meio sério, meio provocando.
Sorri e deslizei a mão pelas costas dele.
— Então vamos esperar até termos uma garagem decente.
Spider School: O Treinamento das Aranhas
No caminho de volta para casa, David finalmente começou a me explicar como funcionava o treinamento com as “aranhas”.
Nós chamávamos aquilo de Spider School.
Oficialmente o local era chamado de Agência de Microdispositivos.
As aranhas eram drones inteligentes capazes de agir sozinhos ou em enxame.
O treinamento começava em simuladores parecidos com videogames dos anos 90.
Conforme avançávamos nos níveis, as aranhas ficavam menores, mais rápidas e mais perigosas.
Primeiro pareciam cães mecânicos.
Depois diminuíam até o tamanho de uma lata de sopa.
Mais tarde, chegavam ao tamanho de um saleiro.
Elas podiam mapear ambientes, detectar ameaças, escalar praticamente qualquer superfície e operar quase sem ruído.
A tecnologia era tão avançada que parecia ficção científica.
O mais surreal era descobrir que aqueles dispositivos eram montados manualmente por senhoras idosas usando microscópios e braços robóticos.
Cada aranha custava mais de cem mil dólares.
E mesmo assim cabia na palma da mão.
A Missão em Juárez
Depois de semanas de treinamento, recebemos uma nova missão.
Seria perto de casa.
Do outro lado da fronteira.
Em Juárez.
Nosso chefe explicou que a operação era opcional. Outros agentes já haviam tentado concluir aquela missão e morreram.
O alvo era um fugitivo internacional ligado ao tráfico de armas e narcóticos.
Interpol queria provas da execução.
Também havia uma recompensa milionária.
Passamos dias analisando fotos de satélite, rotas, padrões de movimento e possibilidades de infiltração.
A fazenda onde o homem vivia ficava em uma região turística montanhosa ao sul de Juárez.
O lugar parecia pacífico para quem observava de fora.
Mas os relatórios descreviam algo muito mais sombrio.
Infiltração na Fazenda
Nosso primeiro reconhecimento aconteceu cruzando a fronteira por Santa Teresa, no Novo México.
Alugamos um carro para evitar qualquer ligação direta conosco.
Depois seguimos por estradas desertas até uma região montanhosa cheia de trilhas usadas por turistas americanos e mexicanos.
A paisagem era seca, quente e brutal.
Rochas.
Areia.
Cactos.
Montanhas queimadas pelo sol.
Levamos horas caminhando até alcançar os limites da fazenda.
Instalamos câmeras escondidas próximas às trilhas, ao poço natural de água e aos prédios principais.
Enquanto nos movíamos pelo terreno, precisávamos permanecer abaixados para não sermos vistos pelos turistas montados a cavalo.
Em determinado momento, nos escondemos em uma árvore enquanto um grupo de visitantes passava.
Logo depois surgiu um homem sozinho.
Mais velho.
Gordo.
Chapéu branco.
Arma na cintura.
David cochichou:
— Acho que é ele.
Ficamos observando em silêncio enquanto o cavaleiro desaparecia pela trilha.
Ainda não era o momento.
Terminamos nosso trabalho e atravessamos as montanhas novamente antes do anoitecer.
Quando finalmente cruzamos de volta para o Novo México, estávamos destruídos.
Quentes.
Suados.
Cobertos de poeira.
Paramos em um posto para comprar água.
Sentamos na calçada e esvaziamos duas garrafas enormes quase sem respirar.
David encostou o ombro no meu.
Mesmo cansado, ainda conseguiu sorrir daquele jeito provocante que sempre me desmontava.
Vigilância e Preparação Final
Durante os dias seguintes, analisamos milhares de imagens enviadas pelos drones e pelas câmeras escondidas.
Logo identificamos o alvo.
Ele seguia exatamente a mesma rotina todos os dias.
Montava no mesmo cavalo.
Usava praticamente as mesmas roupas.
Patrulhava determinadas áreas da fazenda.
E desaparecia em um dos prédios camuflados todas as tardes.
Quanto mais observávamos, mais entendíamos que a missão seria rápida, silenciosa e brutal.
David já discutia maneiras de coletar provas sem deixar rastros.
Enquanto isso, eu tinha dificuldade para dormir.
Os pensamentos sobre o que precisaríamos fazer começavam a invadir minha cabeça durante a madrugada.
Mesmo assim, uma parte de mim permanecia estranhamente calma.
Talvez porque, naquela vida, o perigo sempre acabava se misturando ao desejo.
